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Friday, September 08, 2006

A dinâmica da minha percepção sobre a fé

Teve um tempo em minha vida em que eu vivi soterrado em uma vida pecaminosa, onde a percepção de Deus era totalmente apagada e o pouco que tinha estava embassada. Durante esta época, as minhas atitudes eram bem irresponsáveis e cheias de um sentimento de suposta liberdade. Apesar de viver na casa dos meus pais, eu raramente prestava contas a eles do que eu fazia. Um dos motivos era devido a capa moral que eu apresentava a eles, e que de certa forma era bem trabalhada. Em casa eu era o bom filho, o estudioso, o bom amigo, o responsável, etc. Porém, eu sabia que aquilo que eu mostrava como sendo “eu”, de fato não era exatamente o “eu” todo. Era apenas uma parte do meu “eu”, pois, a outra parte era algo apenas para os da rua, para meus amigos de algazarra.
Me converti ao Senhor Jesus Cristo aos 22 anos de idade. Para alguns, bastante cedo, para outros, bem tarde. Porém, para mim, no tempo certo. Creio que a minha experiência naquilo que os cristãos chamam de “mundo”, me foi muito boa em alguns sentidos, e má em outros. Boa, porque eu não tenho aquela curiosidade que muitos cristãos que nasceram em lares evangélicos e cresceram dentro da igreja tem. Alguns muito mais compromissados com as doutrinas da igreja, do que com os ensinos de Jesus e dos apóstolos, vivem fixados na idéia de ir para um barzinho, uma boate ou um motel. Sentem-se a pior das criaturas porque assim pensam e estão sempre com sentimentos de culpa apenas porque querem sentir um gostinho dos prazeres do “mundo.” Digo que são mais discípulos da igreja do que de Jesus, porque é na igreja que eles aprendem a “doutrina do não pode isto, não pode aquilo” e é lá também onde eles recebem os ensinamentos da barganha com Deus, que os leva a se sentirem muito culpados por não conseguirem ser aquilo eles acham que Deus espera deles, sempre em troca de alguma coisa.
Claro que o pecado que eu me referi no início deste meu texto não tem apenas a ver com saídas em finais de semana, e/ou bebedeiras irresponsáveis. Porém, a prática constante disto, como um estilo de vida e sobretudo, como sendo a única fonte de felicidade, também é um pecado, ao qual cometi.
Entretanto, esse meu tempo lá no “mundo” também me foi mau. Mau, porque eu hoje eu carrego em minha vida marcas profundas em meu ser. Lembranças de coisas que são abomináveis ao Senhor. O contato constante com o esse sistema mundano e suas diversas aplicações na vida do ser humano, somado às relações humanas corrompidas, (baseada em uma busca incessante de prazer em detrimento de qualquer consequencia), traz para aquele que o vive, cortes profundos na alma. E para aqueles que o larga, cicratizes vivas e pulsantes de um passado doentio.

Após minha conversão, entrei em um estado de amor pela igreja. Reparem bem que Jesus me salvou, e eu me apaixonei pela igreja. Claro que a razão para tal paixão não estava no prédio em si, mas porque eu sempre conectava aquele lugar com a presença de Deus. Para mim, ali era praticamente o único lugar onde Jesus falava com seu povo. Comecei a ler a Bíblia, a me envolver mais e mais com as atividades da igreja e em pouco tempo de conversão, eu já era o líder dos jovens. Como minha igreja era pequena, não haviam muitas pessoas com quem o pastor poderia contar para ajudá-lo nas atividades de culto. Eu fiquei bastante ativo, porém, comecei pouco-a-pouco a perder o fogo da paixão, pois, havia sobre mim uma pressão muito grande para manter as pessoas indo aos cultos e motivadas.
As coisas pioraram depois que o pastor resolveu sair da igreja e me deixar como o “líder” daquela pequena comunidade. Só Deus sabe como eu quis sair junto com o pastor, mas aquele senso de responsabilidade e zelo com a igreja me fez permanecer. Aquele tempo em que eu fiquei a frente dos trabalhos da igreja, onde eu tinha que abrir a igreja, tocar e cantar, pregar, recolher as ofertas, fazer uma oração final e depois fechar a igreja foram muito difíceis para mim. Primeiro porque eu tinha pouco tempo de conversão. Não havia um conhecimento maior da Bíblia, não havia muito carisma, não havia praticamente nada que eu pudesse me segurar para trazer algo melhor para os irmãos, apenas, a certeza no meu coração de que Deus de alguma forma agia através de mim. Segundo, porque as memórias dos meus tempos longe de Deus ainda estavam bem vívidas em mim, e por astúcia do inimigo, elas sempre voltavam mais e mais frequentemente.
O maior milagre que eu vejo em tudo isto foi eu não ter me desviado da presença de Deus, pois, culpa e vergonha eu tinha de sobra. Eu havia me tornado um díscipulo da igreja, e pior ainda, sozinho, sem alguem mais experiente para me ajudar. Teve um dia em que eu antes de iniciar o culto, me ajoelhei e chorei ao Senhor. Nesta oração, eu pedia que Ele não olhasse para minha vida, mas olhasse para aqueles que estavam lá para ouvir uma palavra de dEle e que por amor aos irmão, que Ele me usasse como instrumento mais uma vez.
Graças a Deus que depois de quase um mês praticamente sozinho na liderança da igreja, uma igreja maior resolveu adotar nosso trabalho e passou a enviar músicos para tocar nos domingos. Esta igreja ainda colocou um seminarista responsável para conduzir os cultos semanais.

Seis anos se passaram. Hoje eu tenho outra visão acerca das coisas de Deus, Sua igreja e Sua obra. Infelizmente olho a igreja hoje em dia com muito criticismo. Não por razão de alguma mágoa ou de algum sentimento ruim em relação a Deus. Mas por ver o sistema religioso como um fim em si mesmo. Por ver a hipocrisia da igreja e principalmente dos seus líderes. Por ver a corrupção do Evangelho de Jesus para obter beneficios pessoais, por ver o controle e a manipulação de pessoas simples por parte de lobos que se dizem pastores.
O movimento iniciado por Jesus no primeiro sécula desta era, se tornou um grande império, um sistema de doutrinas e dogmas congelados pelo tempo. O amor pregado por Jesus, deu lugar a um moralismo sem igual no Novo Testamento.
A institucionalização da igreja, ainda que necessária para a continuidade do movimento iniciado por Jesus, perdeu grande parte de sua essência. As convicções que os discípulos tinham enraizados em seus corações, esfriaram e deram lugar a sistemas de doutrinas, a dogmas pedrificados. O profeta se tornou o pastor do estabelecimento, o carísma se tornou um ofício, o chamado um emprego, e o amor uma rotina. A igreja se tornou mais e mais institucionalizada e cada vez menos preocupada com o mundo ao seu redor.

Porém, a despeito de tudo o que o sistema religioso marcou negativamente a minha alma, eu continuo amando a Jesus, Senhor meu e Deus meu. Eu de fato aprendi que Jesus não se faz presente apenas dentro dos prédios chamado igreja. Hoje, estou ciente da manifestação do amor de Deus por todos. Tive a experiência de ver que Deus está em toda parte, em todos os povos, e em todas as nações. Não porque existem igrejas em todos os lugares, mas porque Ele É independente do sistema religioso. Ele é soberano, Ele é livre, Ele é amor, Ele é Senhor, Ele é e sempre será, tanto, onde há igrejas em cada esquina, quanto, onde não há.

Sendo assim, descanso no Senhor e busco obedecê-Lo. Reconheço a sua graça e por ela vivo. Busco ser livre nEle e entendo que só Ele é o Senhor e nosso mediador com o Pai.

Que Deus nos abençoe,

Rodrigo Serrão

1 comment:

Adriana Simões said...

Acabei de ler o seu texto!

É Ro, uma vez eu te disse que deve ser muito bom uma pessoa ter uma visão nítida das trevas e da luz, assim como você tem, não que seja interessante pecar, mas, porque se valoriza ainda mais as obras e o amor do Senhor.
Diferente de você, fui criada em um lar evangélico, já nasci "dentro" da igreja! :)
E o que você falou é bem verdade, para nós essa curiosidade de conhecer um "pouquinho" do mundo existe, porém, a culpa e o medo atormenta sempre a mente daqueles que são oprimido.
Eu cheguei a experimentar algumas coisas sim, como já te falei, mas, o Espírito Santo sempre me incomodava, eu ficava feliz ali e depois meu coração se quebrava e eu me perguntava: Meu Deus o que eu estava fazendo??
Com o meu amadurecimento, eu me sentia presa a igreja e algumas vezes distante de Deus.Mas, como estava na igreja, achava que estava tudo bem.
Suas palavras Ro foi quem mudou muita coisa na minha vida, Deus te usou na época em que estávamos nos conhecendo mesmo sem você perceber, hoje sirvo um Deus verdadeiro e vou na igreja por acreditar que ainda seja um lugar de comunhão e aprendizagem, muito embora, tenha virado o sistema que você descreveu e eu concordo com você.
Tenha certeza Ro, que toda a experiência que você passou não foi em vão, Deus estava te usando, te preparando e abençoando vida através de você.
"...apenas, a certeza no meu coração de que Deus de alguma forma agia através de mim...", essas suas palavras aqui dizem tudo, se você tinha e tem essa certeza, que queres mais??
Quanto as marcas do seu passado, não as veja como ruim, mais sim, como algo de muito bom, onde aquele Rodrigo antigo foi lavado pelo sangue de Jesus e que hoje é uma benção e um discípulo de Cristo.
O que posso te dizer é que a cada dia você cresça mais e mais em Deus, que Ele te use sempre e que te capacite para que através de você muitas almas possam ser salvas e que muitas pessoas possam aprender mais deste amor vindo do Pai.
Louvado seja Deus que te tirou do mundo e do pecado e restaurou sua vida e seu coração.

E por falar em coração, deixo aqui um beijo bem carinhoso nele.
Fica com Deus

Dri